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21 de maio de 2013

Juliana Renó Serpa Carvalho ganha Prêmio Literário na Itália





Juliana Renó Serpa de Carvalho, mora atualmente na Itália, mais precisamente em Piancogno.

A prefeitura de Piancogno, como parte das comemorações de seu cinquentenário,  promoveu a “1ª Edição do Prêmio Literário”, da qual Juliana e mais centenas de pessoas da comunidade participaram. O trabalho de Juliana ficou entre os 6 melhores e no julgamento final foi premiada com o 1º Lugar.

Este trabalho, juntamente com outros, foram enterrados dentro de uma caixa “A Custódia dos Pensamentos”, que será aberta daqui a 50 anos, nas comemorações do centenário da cidade.

 Juliana é filha da Brazopolense Marlene Renó Serpa de Carvalho e Marcelo Carvalho e neta de nosso ex-prefeito Nóe Pereira Serpa.

Parabéns, Juliana!


PRÊMIO LITERÁRIO

Contando Piancogno

I EDIÇÃO 2013

 
DE VOLTA ÀS ORIGENS


 Os primeiros raios do sol desenham linhas pontilhadas na parede do quarto, é hora de levantar. Abro a janela e o cheiro de terra e grama molhadas invade todo o quarto, respiro fundo e encho os pulmões, aquele aroma é familiar, típico de quando choveu durante toda a noite. Lá fora o céu é límpido e azul, contrasta com a neve na ponta das montanhas já verdejantes; permaneço aqui, parado, a olhar aquele panorama que acompanha as minhas recordações de infância. Assim começa a sexta-feira do dia 27 de abril de 2063 e se apresenta repleta de emoções.

Passaram-se poucos dias desde quando recebi aquele e-mail, um convite à 72ª edição da Feira das Flores de Piancogno, uma manifestação que ocorre anualmente no lugar onde vivi minha juventude; naquela ocasião seria aberta “A Custódia dos Pensamentos”, coincidentemente com as comemorações do centenário da cidade. Passaram-se tantos anos e ainda me lembro muito bem do dia em que a professora nos disse para prepararmos alguns depoimentos e quaisquer outras lembranças sobre nossa cidade para serem enterrados dentro de uma caixa, que seria aberta depois de cinquenta anos. Estávamos entusiasmados e talvez não nos dávamos realmente conta da importância de tal evento, para nós era somente uma ocasião para imaginar aquele futuro tão longe. Isto me trouxe aqui hoje, depois de uma longa viagem de avião.

O estômago reclama e me desperta de minhas lembranças. Escolhi hospedar-me em uma das belas casas históricas usadas como hotel no centro da cidade; estão na moda e dizem que valorizam o território e as tradições locais. Na sala principal, algumas famílias de turistas saboreiam a primeira refeição do dia: o aroma intenso do café me faz voltar aos tempos em que mamãe nos acordava para ir à escola. Sobre minha mesa, ao lado da xícara, uma cestinha bem vistosa me chama a atenção: fatias de pão com açúcar, um doce... sim, noto com surpresa que se trata da spongada! Há anos não a comia.

Antes de sair, passo o polegar no escâner e um bip confirma os meus dados e o pagamento. Hoje é tudo assim, sem dinheiro e nem cartões de crédito, verificam a sua identidade, o seu DNA e registram as compras que você faz; é comodo, mas não há mais contato humano e a possibilidade de negociar com o vendedor. Digo um até logo ao computador como se fosse uma pessoa e saio... ah! Frescor da manhã e os primeiros rumores da Feira das Flores.

A Feira cresceu no decorrer dos anos: agora começa desde a Igreja de São Vítor e Sagrada Família e vai até Cogno. Pensar que há cinquenta anos chegava até o campo poliesportivo, percebe-se que o sucesso de hoje se deve muito ao envolvimento de todos os moradores na organização do evento. Dois trenzinhos coloridos e modernos fazem um passeio turístico de Piamborno a Cogno carregados de passageiros, decido subir em um deles para ver o que mudou na cidade e embarcar em uma viagem de volta ao passado, uma espécie de túnel do tempo. Minha família foi uma das tantas de Piancogno que se viram obrigadas a emigrar; a grande crise do novo milênio colocou em dificuldade Estados fortes e potentes por dez anos, imaginem o que não fez na Itália.

Dirijo-me à parada da igreja para esperar um dos dois trenzinhos. O centro juvenil paroquial cresceu, há um grande movimento de pessoas atarefadas com os últimos preparativos para esta noite e me dou conta que nem todos são camunos, mas uma mistura de raças provenientes de vários países que enriqueceram a cultura e a sociedade locais. Do outro lado da rua, onde antes havia uma concessionária, leio Universidade de Valle Camonica – Faculdade de Turismo e vejo que finalmente realizaram aquele projeto para valorizar nossa região e suas belezas; os numerosos turistas são o resultado de tudo isso. Muitas coisas mudaram nestes anos e agora nosso vale não pertence mais à província de Bréscia. Valle Camonica província!, eram os protestos premonitórios que líamos nos muros e viadutos das estradas. Um governo diferente e contra a tendência da maioria em abolir as províncias que acabaram por enriquecer a região, uma espécie de federalismo.

O trenzinho está chegando e tomo meu lugar ao lado de um jovem casal que conversa alegremente, falam um dialeto camuno mais jovial e fluente. Já no meu tempo, falava-se de introduzir os vários dialetos presentes na Itália nas escolas a fim de valorizar e preservar nossa. Próxima estação: Museu Sacro de São Vítor. Enquanto o rapaz tira uma foto em 3D, a moça lê a descrição na guia eletrônica: “A antiga igreja dedicada a São Vitório e reconstruída no século XVII, preserva hoje as obras sacras dos mais ilustres artistas da Valle Camonica”. Mais além, algumas pessoas percorrem uma trilha ao longo de uma cachoeira que borrifa água sobre os pedestres, um verdadeiro alívio nos dias quentes: é o velho Dávine, que agora pode ser percorrido por todo seu trajeto até a nascente.

O trem segue seu percurso, toma a Rua Nacional e para para pegar mais passageiros. Vejo a Avenida Estação e as escolas que frequentei, tempos descontraídos, quando nossa única preocupação era levar boas notas para casa! Era tão divertido brincar com meus amigos naquele parquinho ao lado da escola... será que ainda existe aquela árvore grande que ficava com as folhas amarelas no outono? A estação ferroviária ainda tem a característica cor vermelha, mas agora é mais ampla e moderna. Dois trens estão parados nos trilhos e em um painel eletrônico aparece o seguinte aviso: Destino Bréscia, plataforma 1. Destino Ponte di Legno, plataforma 2; agora a ferrovia vai além de Edolo.

O tour recomeça e vejo flores em toda parte: uma explosão de cores nas varandas e jardins das casas, nas barraquinhas, nos vasos que decoram a rua e as lojas. As cores ganham ainda mais vida com as vozes das pessoas que passeiam, com as risadas das crianças que se divertem brincando com os hologramas e com os concertos musicais. Interessante ver que o artesanato ainda é presente aqui, uma atividade passada de geração a geração; ainda são usados materiais como madeira, ferro e vidro, apesar do largo uso da fibra de carbono e do policarbonato.

Próxima estação: Praça do Município. O antigo palácio agora é maior e mais moderno, somente o relógio continua no seu lugar, assim como o chafariz no centro da praça circundado por um pequeno canteiro florido; ao lado do paço municipal há ainda a antiga casa de repouso e seu parquinho, embora esteja mais parecido a um spa (são os benefícios da tecnologia). Do outro lado, bancos e escritórios substituíram algumas casas. A Praça Alpinos abriga um novo centro multicultural, onde um grande banco de dados recolhe todo o conhecimento das culturas de fora e locais. A Praça Mártires de Rua Fani está ainda mais bonita, graças a seu parque florido e cuidado com perfeição que convida todos a relaxar nos cômodos bancos ao longo da praça e escutar o som de fundo da água que escorre no antigo chafariz.

Todas as casas e prédios foram reformados; os mais antigos foram preservados, enquanto os mais novos espelham o gosto elegante e curvilíneo do estilo pós-contemporâneo. É o reflexo do crescimento econômico, que permitiu o retorno de um bem-estar às famílias na Itália, uma espécie de segunda Belle Époque. Percebo com grande entusiasmo que, agora, os piancogneses falam bem outras línguas e não hesitam em dar informações corretas aos vários turistas presentes na feira.

Desço na estação do antigo campo poliesportivo, onde sempre íamos brincar. Vejo diante de mim hoje um verdadeiro centro esportivo moderno e multifuncional; decido entrar e me alegro em ver a grande fila de bicicletas, finalmente as pessoas optaram pelo uso delas: não poluem, são práticas e leves e ajudam a manter o corpo saudável. De fato, o constante aumento do custo do combustível, o sedentarismo e a poluição obrigaram os governos de toda a Europa a incentivar o esporte e os meios de transporte alternativos. Na parte coberta há 5 quadras poliesportivas; em uma delas, um time de meninas treina basquete: pelas incitações do técnico, restam-lhe poucos dias para um torneio europeu que será realizado bem aqui. É quase irreconhecível o velho ginásio poliesportivo! Do outro lado do vidro vejo duas piscinas: uma semi olímpica e uma outra para a hidroginástica. Uma placa na minha frente sinaliza o campo de futebol e vou lá ver como está agora: naquela grama muito bem cuidada são realizados importantes jogos regionais.

O próximo trenzinho está chegando, é melhor me apressar, já que se dirige a Cogno. Enquanto passamos pelas barraquinhas, noto uma grande fila de videiras sobre as montanhas. Os cartazes pela rua indicam as várias empresas produtoras e reconheço alguns nomes que li em alguma adega: são os grandes exportadores do vinho piancognês na América, Ásia e Oceania. Passamos em frente à Igreja da Imaculada Conceição – Santo Eustáquio, que remonta aos primeiros anos do século XVIII; nós a chamamos “A Igrejinha” por ser pequena. Foi muito bem conservada, sempre graciosa, e lembra muito a intimidade das igrejas campestres.

Percorremos aquela que antes era a rotatória da Rodovia Estadual 42 e que dividia em duas partes os distritos de Piamborno e Cogno. Hoje, um túnel liga o antigo trevo à via expressa, após as mudanças necessárias para dar lugar ao segundo trilho da ferrovia... finalmente são feitas muito mais viagens diárias de trens, alguns o apelidaram de metrô camuno. Cogno, então, agora está mais unido a Piamborno, seja fisicamente que em relação à comunidade. Os dois distritos agora podem compartilhar e colaborar juntos para o sucesso da Feira das Flores. Pouco mais adiante vejo a Estrada do Beato e uma funicular que agora nos leva até o distrito de Annunciata; com uma inclinação de arrepiar, uma cabine sobe pela montanha e nos oferece um panorama espetacular. Lá em cima, os frades franciscanos guardam pelo silêncio e pela oração do convento que do alto protege a Valle Camonica.

Cogno mudou desde quando fomos embora da cidade. Não cresceu muito por falta de espaço físico mas, não obstante, o progresso e o bem-estar social por aqui são visíveis nas casas e prédios reestruturados e em tantas construções pós-modernas. As barraquinhas seguem cobrindo, em parte, as ruelas e os nomes dos bancos, escritórios, lojas e escolas. Instituto Técnico Industrial Estatal “Vittorio Olcese”, leio em uma placa e penso a quantos adolescentes agora podem estudar robótica sem ter que ir a Bréscia ou Milão, tão longe de casa. Última estação: Shopping La Presolana. Que novidade! Desço e entro para dar uma olhada de perto neste cubo de vidro e cimento que ocupa o espaço onde existia antes uma fábrica têxtil; infelizmente, a crise de cinquenta anos atrás não deu trégua e, após várias querelas, a fábrica fechou para sempre suas portas, deixando muita gente sem emprego e decepcionada, vista a história secular desta empresa. O shopping é como todos os outros, a mesma adoração pelo desperdício e pelo consumismo: luzes, vitrines e tantas lojas que vendem de tudo... mas não estou aqui hoje para isto. Olho o relógio e me dou conta que está quase na hora do grande evento na Praça do Município, talvez consigo encontrar algum amigo de infância.

Música! Meus ouvidos me dizem que vem lá da Igreja de São Filipe Néri: é a fanfarra que arrasta uma multidão de pessoas com as músicas típicas da nossa região; junto-me a esta procissão profana e, sem me dar conta, chegamos em Piamborno.

A Praça do Município está lotada. Muitos, atraídos pela multidão, vão se aproximando para saber o que está acontecendo. Em uma varanda, reconheço as câmeras de uma famosa emissora de televisão, a feira agora é importante, muito mais que naqueles tempos; o excelente trabalho dos voluntários encarregados de promover o turismo local, da câmara municipal e a ajuda dos patrocinadores foram determinantes na prosperidade do evento que agora é conhecido fora da região... Meu Deus! Estamos entre os convidados, a caixa nos espera para ser aberta. Não estou acreditando, o que parecia uma brincadeira ou uma coisa particular e íntima se transformou em um reality show: pessoas que esperam as ex-crianças para ver ou vender emoções... típica decadência moral ou o quê?

Decido ir mesmo assim, estou aqui para isto e, francamente, esta viagem no tempo me fez redescobrir sabores, cheiros e lugares muito importantes para mim, alguns refletores não farão mal... as mãos, porém, continuam suando. O acesso ao palco se dá por uma entrada lateral, passo o polegar no scanner e sou autorizado a entrar: eu, como outros felizardos, tenho um lugar como protagonista; não presto atenção aos que me cercam, apesar das caras me parecerem familiares. Mas, por uma certa timidez ou porque o evento está para começar, acabamos por ficar nos nossos lugares e olhar a praça.

Chegou o momento tão esperado: um funcionário da Prefeitura desenterra uma caixa enferrujada pelo tempo, um outro a abre e tira de dentro uma outra menor, parece até uma matrioska. O recipiente é entregue a um senhor bastante idoso; rugas de expressão sulcam seu rosto e somente os olhos revelam sua identidade... o antigo prefeito de Piancogno! Aquele que se encarregou de enterrar “A Custódia dos Pensamentos”, no limiar de seus cem anos, talvez estava mais emocionado que nós, ex-crianças... viveu tanto para conseguir revê-la. Ah, talvez por isso o motivo de tanto tumulto midiático.

Somos chamados um a um, tantos faltam à chamada, talvez porque não conseguiram vir ou, então, não se interessaram ou, infelizmente, não estão mais presentes; reconheço algumas carinhas e compreendo como o tempo é implacável. Mas eis que chega minha vez… o público aplaude e vou para frente, entre os refletores. Em seu rosto transparece muitas vicissitudes e seu aperto de mão ainda é vigoroso: o ex prefeito entrega em minhas mãos um envelope amarelado que exala um leve cheiro de mofo e, atrás dele, meu nome com a letra da professora. Infelizmente ela não está presente, recebi a notícia de sua “viagem” somente no ano passado. O que tenho em mãos é uma lembrança dela e dá um aperto no coração.

Pelo regulamento, cabe a nós escolher se abrir os envelopes publicamente ou em privado. Fico em dúvida se abro o meu para satisfazer, em primeiro lugar, a minha curiosidade e do público ou, quem sabe, entregá-lo à nova geração e a meu netinho; mas depois meu olhar cruza o do ex prefeito... viveu tanto para chegar a este momento que talvez lhe devo essa. Então, movido pelo impulso de tantas emoções, tomei a decisão que vocês sabem e fui embora. Desta vez, porém, para sempre.

Até logo, Piancogno.


Juliana Renó Serpa de Carvalho

6 comentários:

Anônimo disse...

parabéns Juliana,eu sempre soube que vc iria brilhar.Abraços aos pais,meus amigos queridos pelo sucesso dos filhos maravilhosos.Saudades de vcs.Flora M. Gomes. hasta!!!

Anônimo disse...

Parabéns, mesmo! Muito bom o texto.

Marina Cintra disse...

Parabéns linda Juh! Fiquei muito feliz ao saber.. Que história interessante.. daqui 50 anos ainda se lembrarão disso! ;)

Maíra Cintra disse...

Lembrei de quando eu gritava lá de baixo do seu edifício dos bancários em SP, para vc vir brincar na rua com a agente. Mas não, ficava trancada dentro do quarto estudando. Fez muito bem viu... rs Parabéns Ju!

Beatriz Olgado disse...

Ju... Que orgulho...Parabens!!!!

La Nostra Italia disse...

Obrigada pelo carinho de voces. Fiquei muito feliz ao ler as homenagens e as lembranças dos tempos do Brasil.
Beijos com saudade

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