Naquele momento, onde quer que gente houvesse, apenas ele, seria o fiel depositário do segredo. Se não mentisse sobre sua própria real condição, alegando ignorância total, provavelmente, nunca seria perdoado, condenado a vagar, excluído de todos e para sempre. Já ouvia a voz da esposa, em noite frias:
- Que marmotice! Babáu!
Mas o que é um boi pra quem não tem uma boiada? Um só pensamento cruzou sua mente como um raio corta a noite escura. Para aquele segredo, apenas um destino: ser destruído. Na condição de delegado, fiel depositário do segredo e articulador das forças moralizantes da sociedade, como poderia ele esperar o dia nascer e o mundo acordar? Seria tarde demais! Naquele momento, a decisão já estava tomada. Não haveria como recuar. O futuro não lhe perdoaria essa covardia.
- Não deixe a vaca deitar, homem! – sussurrou-lhe, no vazio da madrugada, a voz da consciência.
Com solenidade processional, dirigiu-se aos fundos da delegacia carregando, litúrgico e reverente, a relíquia do segredo. Numa mão, a oferta do sacrifício: a caderneta encardida. Na outra, o fogo: a caixa de fósforos Pinheiro. Uma lata velha lhe serviu de altar e, ali, o delegado, no pleno exercício do seu improvisado sacerdócio e na plena saberênça de seu poder constituído, riscou o fósforo, ateou o fogo, e viu a caderneta desaparecer. Nada mais restou na lata vazia, senão cinza de papel a ser varrida pelo vento.
Estava feito.
De volta ao interior da delegacia, foi rápido no agir. Uma outra caderneta, igual no tamanho e na forma, resvalou para o relicário vazio do saco de papel e da sacola de plástico. Selado pelo durex, todas as aparências voltaram, como antes, ao aspecto que tinham, no fundo da maleta, no escuro da gaveta, no claustro do armário.
Que glorioso dia!
E já antevia o espasmo dos cidadãos quando, ao abrir-se dali a pouco o segredo desvelado, tudo não passasse de folhas em branco. Já ouvia o rugir da esposa, clamando aos céus vingança por ter sido enganada e espoliada em sua avara riqueza. Já via o queixo caído do prefeito, o sobressalto do vigário, a voz engasgada do juiz de paz, o riso sarcástico da oposição e, sobretudo, o timbre de sua própria voz anunciando que tudo aquilo não passara de brincadeira de mau gosto de algum salafrário, desregrado, vagabundo, ou desafeto da ordem estabelecida.
- Da próxima vez, senhores, se ouvirem barulho de casco, pensem em cavalo, não em zebra! – E com essa, arremataria a sua fala naquele dia.
Estava feito. Barba, cabelo e bigode.
Quando botou o pé na rua, o sol nascia pros lados do Cancan. Seis e meia, anunciava, sem pudor, o relógio da Matriz despido da névoa.
Saiu.
Ainda teve tempo de cruzar com os primeiros madrugadores no frio de junho. Um deles descia cantando: “Cabelo louro, vai lá em casa passear, vai, vai cabelo louro, vai’cabar de me matar!”
Daquele dia, mais tarde, só a Teresa do Joaquim do Clube daria notícia quando cruzasse com a Elisa em frente à farmácia do Chico Rezende: “Credo, menina! Vi um povo carrancudo na delegacia, com cara de quem comeu e não gostou!”
Em meio à praça, o delegado olhou a cidade que ainda dormia inconsciente. Respirou o ar leve da manhã que lhe saiu da boca em halos de fumaça branca. Tratou logo de tomar seu café no bar do Geraldo. Teria um dia longo pela frente! Muitas dúvidas, incredulidades, um furacão de porquês, um escarcéu de ataques, e só um escudo para se defender de todos: uma certeza.
O segredo estava por aí, em toda parte, voando nos restos mortais de uma caderneta em cinzas. A dúvida que não o havia deixado dormir, que o fizera pular da cama muito cedo, esgueirar-se pelas ruas escuras, enfrentar o medo do futuro e sair de tudo vitorioso, essa dúvida, não existia mais.
Aquele era o momento único em que uma única certeza sustentava as vigas da alma de um homem. E ele, o delegado, a tinha. E ela podia ser expressa num único pensamento, numa única menção, numa única frase. Podia ser até escrita em pedra-mármore, para a posteridade tomar nota daquele dia. Ali, ao lado da Matriz, sob as centenárias árvores que a rodeavam num abraço – a certeza – ele a proferiu, de si para si mesmo, com voz rouca de emoção:
- Neste vasto universo, até onde a vista alcança e o saber permite, nunca... mais... ninguém... irá... conhecer... O SEGREDO DO PASTEL DO LAZINHO.
Um comentário:
Renato, que criatividade! Consegui imaginar, direitinho, mamãe e D. Elisa! Como se ainda estivessem conosco! Adorei!
Fátima da Teresa Moraes
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