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18 de novembro de 2015

O SAPATEIRO - Renato Lobo




Cresci ouvindo que os sapateiros eram um pouco filósofos.

Nas cidades grandes, a tendência é o seu desaparecimento. Tudo o que faziam virou peça de museu. Mas nas cidades pequenas, o sapateiro ainda exerce a soberania não somente na maneira de abordar, com cada homem, os problemas fundamentais do espírito, mas também no modo parcimonioso e severo com que devolve a todos os humanos a compostura do andar. Afinal, o sapateiro é o homem que mantém minuciosamente guardadas em sua oficina as formas (dos sapatos!) de todos os habitantes da cidade. Pensando bem, não são nem os filósofos nem os teólogos nem os psicólogos que conhecem o fundo da alma humana. São os sapateiros. São eles que, realmente, sabem como andam as coisas.

Ele sabia. Ao lhe entregarem um par de sapatos velhos, ele sabia qual era o ponto frágil de cada um: onde a justiça coxeava, onde o sapato apertava, para que lado pendia o peso da autoridade, que defeito tinha o pé da moça “que deu o mau passo”. Com o discernimento que o distinguia em suas horas de trabalho, armado dos instrumentos mais rudimentares, ele ia tratando de consertar defeitos e corrigir tudo que falseia, aplicando laboriosas marteladas nos erros e equívocos da humanidade.

Era ele, assim. Não acreditava em nada, porque o sapateiro não precisa acreditar em nada. Ele sempre soube que a humanidade surra os sapatos e leva-os para serem remendados e renovados. Mas continua jogando-os no lixo, com o solado sempre gasto no mesmo canto, apesar de todos os esforços que os antepassados fizeram para corrigir, no futuro, a mesma maneira de andar e pisar, incorrigível, do passado.

Por essas e outras, de tanto conhecer as fraquezas e debilidades dos semelhantes, o sapateiro se torna um cético. Passa o dia, cumprindo apenas o dever aprendido, quase religioso, apesar de cético, de ajustar o que os outros irremediavelmente desajustavam. Mas faz isso sem fé, sem convicção, sem ilusões, simplesmente, com a esperança de que a morte o encontre fiel às fôrmas, às agulhas e aos fios. E a nada mais.

Mas, aos sábados, quando todos os cidadãos faziam suas visitas com os sapatos remendados, exibindo o falso e transitório caminhar que lhes proporcionam um salto novo e uma sola em bom estado, ele, de sua oficina, os via passar, e sorria com dissimulação e erguia um brinde em louvor dos cambetas, pelo que há de incorrigível nos sapatos rotos e pela honestidade sem véu que só os pés tortos da vida exibem. Era esse o maior sentido do seu ceticismo. Ele era um cético à maneira antiga: observava, olhava à distância, e não se contaminava com paradigmas bambos.

“O IMPOSSIVEL FAZEMOS NA HORA, O MILAGRE DEMORA UM POUQUINHO MAIS”. Essa era sua lei e sua religião. Estava escrito na parede da sapataria.

Daí, um dia, cansado de conhecer o mundo pela sola do sapato dos outros, ele se foi, a andar com os próprios pés. Sempre disse que queria ir calçado, com o melhor sapato, aquele que nunca conhecera o pó das ruas, guardado só na esperança daquele dia, quando nunca mais as solas se soltariam do andar em vão.

Fizeram velório, oficio funerário e enterro de bispo. Todos da cidade foram reverenciar, pela derradeira vez, aquele que dera asas aos pés dos outros. Naquele dia, não faltou viva alma. Da senhora do prefeito, de quem ele limpou e repintou a sandália tantas vezes suja de lama, ao padre, a quem consertou as botinas, vezes sem conta, também enlameadas. Como, aliás, os de todos e de todas por ali. Todos renderam as últimas e justas homenagens a quem lhes proporcionou a ortodoxia do andar. À virada da praça, enquanto o féretro escalava sua última jornada, dobraram os sinos em repicado e triste som: o último toque de quem encomenda a alma, os desejos, os segredos. E nada mais.

E assim, ele cumpriu a sina integralmente. Veio quando teve de vir, ficou quanto teve de ficar, foi quando precisou que não precisassem mais. Mas não foi calçado. No único par de meias que encontraram em condições de lhe calçar o pé defunto, cada uma foi de outra cor. Cobriram-lhe essa vergonha com flores improvisadas que a vizinhança dispôs. E ele seguiu, praticamente, descalço.

Cumpriu sua sina. Integralmente. A sina de quem garante aos pés alheios, o que nunca garantiu aos seus. Mas, isso também não importa tanto assim.

Um comentário:

Rosa Noronha disse...

Profundo, verdadeiro, irônico, filosófico... Com a perspicácia de um lobo. E de um Lobo...

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